Vai, entra
Atravessa este canal
Dê voltas em mim
Olhe lá e diga
Se há algo amoral
Se há algo inexplicável
Que eu possa fazer hoje
Confirmou minha falta de vontade?
Entre mais um pouco
Cheire o que eu repudio
Traga o que eu não sinto saudade
Force-me ao que evito
Conseguiu me deixar vulnerável?
Ata-me às tuas correntes
Controla lá de cima
Veja-me descer ao subir
Deixá-los subir
Deixá-los sucumbir
Arrasta-me para essa dimensão
Tão desejada, tão ansiada
Aquela pela qual eu voei
Aquela onde eu apaguei
Acordei agora e olhei
Só vi resto do que não restava
Não sei em que lado parei
Abri, deixei entrar
Perdi
segunda-feira, 18 de abril de 2011
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Aquela do carnaval com fim e sem finalidade
Muito à contra gosto, José desacordou quando o Sol ainda estava pensando em abrir os olhos diante daquele lugar. Como todo dia, engoliu alguma coisa pra se manter em pé e se arrumou, semi-acordado, pra enfrentar mais um dia de trabalho. Com a quase consciência de quem já faz tudo meio que mecanicamente, ele partiu. Não pra mais um dia, mas pro mesmo dia. O mesmo de ontem, de anteontem e talvez o de amanhã. Talvez.
Pelo menos esse dia tinha um aditivo: Vinha com aquela recompensa que ia embora antes que José pensasse em querer mudar de vida. O salário que, uma vez ou outra, proporcionava uma euforia passageira, das quais ele mal se lembrava. O álcool fazia-lhe o favor de apagar da memória as tolices que dito e a libido que tinha espalhado nas noites em claro. As costas do fim do mês eram, pelo menos pra ele, motivo suficiente para tentar achar solução ou esquecimento nas moléculas de alguma bebida ou na saliva de alguma mulher especialmente barata.
Depois de horas e horas vendo rostos, números, concreto e suor, alguma mixaria lhe foi dada. E assim ele foi direto pra mais uma noite turbulenta, onde procuraria mais uma vez procuraria respostas ou não-memórias em lugares inusitados. Mas logo depois de chacoalhar dentro de um meio de transporte junto com outros Josés, ao ser regurgitado, foi abordado por um José um tanto quanto cansado da rotina mecânica de quem prefere não tomar o que não lhe é de direito. Ficou sem ter como voltar para o seu lar, seu ponto de retorno. Sem ter como pagar contas. Sem pseudo-solução para nada.
Desesperado, foi andando rumo à sua casa, ainda bem longe. As ruas dali, esquecidas pelos que seriam responsáveis por elas, estavam tão vazias e escuras como a carteira de José. Ele aproveitou que não havia nem sinal de outra pessoa por ali e soltou seu desabafo solitário. Ou não.
- Deus, o que foi que eu te fiz de errado? Será que dá pra ficar pior do que isso?
Alguém responde, logo atrás do poste.
- Eu posso providenciar isso, se você quiser.
- Outro assaltante? – disse José - Agora nem se você quisesse eu teria algo pra lhe dar. Outro já me tomou tudo. Vá roubar outro.
- Quem dera fosse que eu quisesse só seu dinheiro. O que eu quero de você é bem mais caro. E ao mesmo tempo, é um presente.
- Aff, mais um bêbado. Quem é você?
- Sou aquele que pra quem você destina seus pedidos mais íntimos, sendo tolos ou não. E pra quem você fez aquelas perguntas de ainda pouco.
- Eu pensava que era só álcool, mas você usou droga da pesada mesmo. Vai pra casa, rapaz. Sua mãe deve estar preocupada.
Deus riu e disse:
- Sinceramente, se eu não fosse Deus, eu seria um perdido qualquer como você, desesperado por estar a essa hora na rua. Nenhuma alma terrena com algum juízo passa por aqui. Eu pareço desesperado?
- É, não. Aliás, parece bem alegre. Parece que ganhou na loteria ou algo assim.
- Digamos que é algo bem melhor. Algo que ninguém pode me tomar, apontando uma faca ou um revolver pra mim.
- E o que é?
- A chance de resgatar um filho querido.
- E quem é esse filho?
- Você, José.
José fez uma careta e virou as costas.
- Tá, fica ai achando que me fez que eu vou pra casa.
Deus continuou parado onde estava, mas falou um pouco mais alto, pois José já ia mais à frente.
- Casa, José? Você chama aquele amontoado de tijolos onde você estica seus ossos, exatamente como um zumbi, de casa?
José voltou e olhou bem pra cara de Deus.
- Foi o que eu consegui, tá? Acha que é fácil ser pobre? E como é que você sabe que eu moro numa casa assim? Além de drogado, é espião também?
- Espiões só observam pessoas importantes, José. Para sociedade de hoje, você só é mais uma peça pra construir o império dos mais fortes. Aliás, você se fez uma peça. Então eu não teria motivo nenhum para saber mais da sua vida que você, a não ser que eu fosse Deus.
- Eu mereço... Tá bom. Vamos imaginar que você é Deus mesmo.
- Se é assim que você quer me chamar...
- Tá, tá. Porque escolheu esse corpo tão sem graça?
Realmente, Deus estava bem maltrapilho. Estava vestido com roupas de segunda mão e com o rosto bem machucado, como se tivesse acabado de voltar do trabalho também.
- Eu não queria chamar atenção. Acha mesmo que se eu viesse como um homem bonito e elegante, eu não ia virar vítima de fofoca pela minha aparência? Não, obrigada. Já falam muito mal de mim sem que eu tenha nenhuma forma uma humana definida.
- E não tem? E essa de agora?
- Isso não sou eu, só é um canal que estou utilizando. Aliás, é um canal que algum representante de mim está usando. Você acha que eu estou muito satisfeito em estar fazendo isso? Eu já chamo tanto a sua atenção, mas não funciona. Vi-me obrigado a fazer isso.
- Chama minha atenção? Como? Eu não vejo nada.
- Você está olhando com os olhos errados, José. Aliás, mesmo que você usasse esses dois que você tem em sua cara, veria que grito com você todos os dias. Desde a hora que você levanta à que você dorme. E em seus sonhos também. Quem você acha que fez isso tudo e deu forças pra vocês todos fazerem o resto, ou melhor, destruírem o resto?
- Tá, tá. Se eu sou tão cego, surdo e doido assim, o que você queria me dizer?
- Que eu quero que você use seu bom senso.
- Tá me chamando de ignorante agora também? Ok, eu sei que não tenho muita educação formal mesmo, mas não sou tão burro assim quanto você pensa.
- Eu não disse que você é burro. Só quero que você analise melhor sua vida, e saiba usufruir melhor das minhas leis.
- De onde eu vim, leis só servem pra prender a gente.
- Se você me ouvisse, veria que não existe prisão pior pra você do que essa vida que você leva.
- E onde estão essas suas leis? Onde foi que você escreveu?
- Na sua consciência. Você a esqueceu e menosprezou. Agora eu quero que a lembre. ¹
- Lembre de onde? Você nunca me ensinou nada.
- Eu não era a mão que segurava a sua quando você estava aprendendo a escrever, mas era a força que segurava as duas. E assim vale tudo que você. Basta que você se lembre.
José desistiu de questionar. Deus suspirou e disse.
- Agora eu preciso ir. Existem outros como você e talvez em situações piores que a sua que precisam ouvir coisas parecidas com as que eu disse agora. Até breve, José.
E Deus saiu caminhando lentamente, ladeira abaixo, já que o tempo é realmente dele. José o observou até sua silhueta sumir. Sem entender muita coisa, continuou seu caminho para casa (agora em dúvida se era realmente sua casa), com a cabeça tentando digerir alguma coisa que foi dita por aquele que se dizia Deus. Ou um instrumento Dele. Ou algo assim.
Quase se espantou, o despertador já havia tocado e já era hora que acordar. Aquele não dia não havia acontecido. Fora tudo um sonho que o fez dar graças a Deus por nada daquilo ter realmente acontecido. Graças àqueles que havia lhe enchido a mente com o que pensar naquela noite. Mas o mesmo dia de verdade, ou aquele que José achava que era de verdade, veio. O mesmo de ontem, o de anteontem e talvez o de amanhã. Talvez. E talvez José tente esquecer ou encontrar seu bom senso novamente mergulhado em algum copo ou dentro dos olhos de alguém tão vazio quanto ele. Vazio de perspectiva, de sonhos. De vida. Não essa, mecânica e dura, mas a que deveríamos ter, e, enfim, teremos.
[¹]: Adaptado do Livro dos Espíritos, questão 621.
P.S.: Às vezes algumas mensagens são dadas às pessoas antes que elas possam entendê-las. Servem exatamente para que ela as interpretem e aprendam bem mais do que ela brutamente quer dizer. Mas de más interpretações e intenções o mundo ou inferno, seja como for que você prefira chamar esse lugar onde nós estamos, está cheio. O que resta é saber se os erros são por ignorância ou o aproveitamento da mesma, só que a alheia. No fim, ou no começo, todo mundo vai ter o que merece.
Pelo menos esse dia tinha um aditivo: Vinha com aquela recompensa que ia embora antes que José pensasse em querer mudar de vida. O salário que, uma vez ou outra, proporcionava uma euforia passageira, das quais ele mal se lembrava. O álcool fazia-lhe o favor de apagar da memória as tolices que dito e a libido que tinha espalhado nas noites em claro. As costas do fim do mês eram, pelo menos pra ele, motivo suficiente para tentar achar solução ou esquecimento nas moléculas de alguma bebida ou na saliva de alguma mulher especialmente barata.
Depois de horas e horas vendo rostos, números, concreto e suor, alguma mixaria lhe foi dada. E assim ele foi direto pra mais uma noite turbulenta, onde procuraria mais uma vez procuraria respostas ou não-memórias em lugares inusitados. Mas logo depois de chacoalhar dentro de um meio de transporte junto com outros Josés, ao ser regurgitado, foi abordado por um José um tanto quanto cansado da rotina mecânica de quem prefere não tomar o que não lhe é de direito. Ficou sem ter como voltar para o seu lar, seu ponto de retorno. Sem ter como pagar contas. Sem pseudo-solução para nada.
Desesperado, foi andando rumo à sua casa, ainda bem longe. As ruas dali, esquecidas pelos que seriam responsáveis por elas, estavam tão vazias e escuras como a carteira de José. Ele aproveitou que não havia nem sinal de outra pessoa por ali e soltou seu desabafo solitário. Ou não.
- Deus, o que foi que eu te fiz de errado? Será que dá pra ficar pior do que isso?
Alguém responde, logo atrás do poste.
- Eu posso providenciar isso, se você quiser.
- Outro assaltante? – disse José - Agora nem se você quisesse eu teria algo pra lhe dar. Outro já me tomou tudo. Vá roubar outro.
- Quem dera fosse que eu quisesse só seu dinheiro. O que eu quero de você é bem mais caro. E ao mesmo tempo, é um presente.
- Aff, mais um bêbado. Quem é você?
- Sou aquele que pra quem você destina seus pedidos mais íntimos, sendo tolos ou não. E pra quem você fez aquelas perguntas de ainda pouco.
- Eu pensava que era só álcool, mas você usou droga da pesada mesmo. Vai pra casa, rapaz. Sua mãe deve estar preocupada.
Deus riu e disse:
- Sinceramente, se eu não fosse Deus, eu seria um perdido qualquer como você, desesperado por estar a essa hora na rua. Nenhuma alma terrena com algum juízo passa por aqui. Eu pareço desesperado?
- É, não. Aliás, parece bem alegre. Parece que ganhou na loteria ou algo assim.
- Digamos que é algo bem melhor. Algo que ninguém pode me tomar, apontando uma faca ou um revolver pra mim.
- E o que é?
- A chance de resgatar um filho querido.
- E quem é esse filho?
- Você, José.
José fez uma careta e virou as costas.
- Tá, fica ai achando que me fez que eu vou pra casa.
Deus continuou parado onde estava, mas falou um pouco mais alto, pois José já ia mais à frente.
- Casa, José? Você chama aquele amontoado de tijolos onde você estica seus ossos, exatamente como um zumbi, de casa?
José voltou e olhou bem pra cara de Deus.
- Foi o que eu consegui, tá? Acha que é fácil ser pobre? E como é que você sabe que eu moro numa casa assim? Além de drogado, é espião também?
- Espiões só observam pessoas importantes, José. Para sociedade de hoje, você só é mais uma peça pra construir o império dos mais fortes. Aliás, você se fez uma peça. Então eu não teria motivo nenhum para saber mais da sua vida que você, a não ser que eu fosse Deus.
- Eu mereço... Tá bom. Vamos imaginar que você é Deus mesmo.
- Se é assim que você quer me chamar...
- Tá, tá. Porque escolheu esse corpo tão sem graça?
Realmente, Deus estava bem maltrapilho. Estava vestido com roupas de segunda mão e com o rosto bem machucado, como se tivesse acabado de voltar do trabalho também.
- Eu não queria chamar atenção. Acha mesmo que se eu viesse como um homem bonito e elegante, eu não ia virar vítima de fofoca pela minha aparência? Não, obrigada. Já falam muito mal de mim sem que eu tenha nenhuma forma uma humana definida.
- E não tem? E essa de agora?
- Isso não sou eu, só é um canal que estou utilizando. Aliás, é um canal que algum representante de mim está usando. Você acha que eu estou muito satisfeito em estar fazendo isso? Eu já chamo tanto a sua atenção, mas não funciona. Vi-me obrigado a fazer isso.
- Chama minha atenção? Como? Eu não vejo nada.
- Você está olhando com os olhos errados, José. Aliás, mesmo que você usasse esses dois que você tem em sua cara, veria que grito com você todos os dias. Desde a hora que você levanta à que você dorme. E em seus sonhos também. Quem você acha que fez isso tudo e deu forças pra vocês todos fazerem o resto, ou melhor, destruírem o resto?
- Tá, tá. Se eu sou tão cego, surdo e doido assim, o que você queria me dizer?
- Que eu quero que você use seu bom senso.
- Tá me chamando de ignorante agora também? Ok, eu sei que não tenho muita educação formal mesmo, mas não sou tão burro assim quanto você pensa.
- Eu não disse que você é burro. Só quero que você analise melhor sua vida, e saiba usufruir melhor das minhas leis.
- De onde eu vim, leis só servem pra prender a gente.
- Se você me ouvisse, veria que não existe prisão pior pra você do que essa vida que você leva.
- E onde estão essas suas leis? Onde foi que você escreveu?
- Na sua consciência. Você a esqueceu e menosprezou. Agora eu quero que a lembre. ¹
- Lembre de onde? Você nunca me ensinou nada.
- Eu não era a mão que segurava a sua quando você estava aprendendo a escrever, mas era a força que segurava as duas. E assim vale tudo que você. Basta que você se lembre.
José desistiu de questionar. Deus suspirou e disse.
- Agora eu preciso ir. Existem outros como você e talvez em situações piores que a sua que precisam ouvir coisas parecidas com as que eu disse agora. Até breve, José.
E Deus saiu caminhando lentamente, ladeira abaixo, já que o tempo é realmente dele. José o observou até sua silhueta sumir. Sem entender muita coisa, continuou seu caminho para casa (agora em dúvida se era realmente sua casa), com a cabeça tentando digerir alguma coisa que foi dita por aquele que se dizia Deus. Ou um instrumento Dele. Ou algo assim.
Quase se espantou, o despertador já havia tocado e já era hora que acordar. Aquele não dia não havia acontecido. Fora tudo um sonho que o fez dar graças a Deus por nada daquilo ter realmente acontecido. Graças àqueles que havia lhe enchido a mente com o que pensar naquela noite. Mas o mesmo dia de verdade, ou aquele que José achava que era de verdade, veio. O mesmo de ontem, o de anteontem e talvez o de amanhã. Talvez. E talvez José tente esquecer ou encontrar seu bom senso novamente mergulhado em algum copo ou dentro dos olhos de alguém tão vazio quanto ele. Vazio de perspectiva, de sonhos. De vida. Não essa, mecânica e dura, mas a que deveríamos ter, e, enfim, teremos.
[¹]: Adaptado do Livro dos Espíritos, questão 621.
P.S.: Às vezes algumas mensagens são dadas às pessoas antes que elas possam entendê-las. Servem exatamente para que ela as interpretem e aprendam bem mais do que ela brutamente quer dizer. Mas de más interpretações e intenções o mundo ou inferno, seja como for que você prefira chamar esse lugar onde nós estamos, está cheio. O que resta é saber se os erros são por ignorância ou o aproveitamento da mesma, só que a alheia. No fim, ou no começo, todo mundo vai ter o que merece.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Entre o mar, a teoria e a prática
Diante do mar, minha prova favorita de que Deus existe, eu comecei meu ano mais uma vez contrariando a maioria. Diante do mar, eu não prometi nada. Nem pedi nada. E nem pulei nada. Ri pra uma onda que molhou meu vestido e pensei: O que vier está bom. Depois me senti um tanto quanto passiva à vontade de Deus, mas lembrei que não é bem assim. Eu ainda não sei bem o que faço, mas estou trilhando pra saber; daí, então, vou tentar arquitetar algo. Senti-me até lúcida, o que é difícil, quando pensei isso, porque me lembrei daqueles que se esquecem da teoria.
É aquela velha história (ou não). Teoria sem prática é só alucinação ou falta de coragem. Prática sem teoria é aonde o ser humano chega mais perto de ser animalesco. E entre a preguiça, o devaneio e o impulso, eu prefiro a preguiça e/ou o devaneio, sempre. Por isso, quando aqueles saem daqui do meu lado, dizendo que vão tentar ser felizes, eu sei que na verdade vão gastar saliva, palavras bonitas e dinheiro em vão. Eu repito pra mim mesma: Fico com minha preguiça. E meu devaneio, claro. Nada mais poético do que me imaginar gastando aqueles três elementos com alguém que realmente mereça. Mas só imaginar. A prática vã disso se tornou penosa. Rala. Sem cheiro. Sem gosto. Sem vida.
Alguns dizem que é só meu medo de gastar os três elementos. Acham que eu não gastei? Até demais. Até gasto, às vezes, só pra não esquecer o que posso sentir me entregando a isso tudo, mas acabo lembrando que devia ter continuado teorizando. Teorizar sentimentos, sempre. Cessando só pra me mostrar como se não os tivesse. Até que venha a hora de usá-los o mais racionalmente possível.
É aquela velha história (ou não). Teoria sem prática é só alucinação ou falta de coragem. Prática sem teoria é aonde o ser humano chega mais perto de ser animalesco. E entre a preguiça, o devaneio e o impulso, eu prefiro a preguiça e/ou o devaneio, sempre. Por isso, quando aqueles saem daqui do meu lado, dizendo que vão tentar ser felizes, eu sei que na verdade vão gastar saliva, palavras bonitas e dinheiro em vão. Eu repito pra mim mesma: Fico com minha preguiça. E meu devaneio, claro. Nada mais poético do que me imaginar gastando aqueles três elementos com alguém que realmente mereça. Mas só imaginar. A prática vã disso se tornou penosa. Rala. Sem cheiro. Sem gosto. Sem vida.
Alguns dizem que é só meu medo de gastar os três elementos. Acham que eu não gastei? Até demais. Até gasto, às vezes, só pra não esquecer o que posso sentir me entregando a isso tudo, mas acabo lembrando que devia ter continuado teorizando. Teorizar sentimentos, sempre. Cessando só pra me mostrar como se não os tivesse. Até que venha a hora de usá-los o mais racionalmente possível.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Síndrome de Prometeu
Quando sua vida começa a parecer uma música de pagode que remete a “amor” e álcool, você sabe o quanto está se tornando ridícula. Quando você negligencia as únicas coisas pra que está dando ao trabalho de fazer é que você sabe que precisa algo mais. No meu caso, pelo menos, sei que é. Nunca fui de deixar pra trás algo que é objetivo de minha vida, e quando acontece, é porque eu preciso de mais algo pelo qual tenho que seguir em frente. É quando você prefere ficar na rua ao ir pra casa que você percebe isso. Tentar encontrar motivo de qualquer coisa no fundo de um copo ou no filtro de um cigarro depois de um dia cheio é, no mínimo, deprimente. Não tem nada em casa, o que vou fazer lá? Ver o nada se despir na minha frente mais uma vez e me devorar devagar, sem pressa, porque sabe que eu não tenho mais o que fazer? Pelo menos ele me ignora um pouco quando estou fora, pensando que ele só fica no meu quarto, me esperando deitado na cama. Nem é. Quando eu olho pro lado, desolada, e ninguém entende porque, é quando estou olhando pra ele, rindo de mim e dizendo o que vai fazer comigo mais tarde. Quando fecho a cara até praqueles pra quem eu deveria sempre sorrir por fazer em meu dia melhor, é porque o nada me lembra que ele me acompanha mais do que todos eles. Não é culpa deles, é minha mesmo. Abraço-me com o nada até sem motivo, pois já me acostumei com ele. Até agora, ele não me traiu. Só me chama de tola mesmo, mas isso eu já sei que sou. Ele prefere que eu fique com qualquer um que me ache como o presente da noite, mas prefiro ele mesmo. É o nada que me fere, mas ele mesmo me cura, pra poder me ferir de novo. Não sei se aguentaria ser ferida por mais alguém. A cura pro nada seria outro alguém que deveria me dar, mas até agora só deram mais motivos pra o nada me devorar mais devagar ainda. Sacrifício tolo, eu sei. Mas pelo menos o nada me dá atenção.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Talvez, luz
Seleciono. Organizo. Tabelo. Tudo tem que ter um nome. Tem mesmo? Não, não tem. O mal do ser humano é querer definir tudo em palavras. Cá estou eu errando mais uma vez, mas só assim consigo me sentir viva. As engrenagens param e eu consigo descer. Só por um tempo, pois logo, logo eu me juntarei de novo a essa maquinaria. Vagarosamente, sem entender muita coisa, como sempre, vou tentando juntar as peças desse quebra-cabeça que vai me revelar o nada que isso tudo representa.
O que era prazer virou vício, e o vício se tornou tédio. Todos eles me matavam, mas ter “evoluído” para esse último me mostrou que os outros dois só me levariam ao caos maior ainda. Já não consigo entender quem vive em uma busca incessante pelo que vai desaparecer já. Agora mesmo, aliás.
Olha bem pra mim, criatura, e me diz o que foi que tu levaste daqui. Está vendo essas lágrimas? Duas opções: Ou são de gente tão medíocre que tu é que servias como fonte do banal e grotesco para eles, ou, como eu, são pessoas que choram de pena de ti, que vieste ao mundo e não fizeste bem nem a ti, imagine a quem te rodeava e merecia isto.
E voltamos a visão pra cá. Pro reflexo do desespero de isso não aconteça nunca mais. Seria melhor buscar esses pequenos, caros e passageiros prazeres? Só se o cobrador não estivesse sempre li, à minha porta, me sugando cada linha dessa pseudo vida que tenho, me mostrando o quão tola já fui.
Claro que sou eu mesma me esperando à porta. Nada mais cruel e justo. Mas um dia eu atravessarei essa porta.
Continuo a etiquetar os dias. Sem sentido, sem lógica, vários rumos, uma solução. E é nesta última que eu persisto. Enfraquecendo, padecendo, torcendo pra que a esperança se vá, parando de me chamar de tola. Sozinha, só me restará a força. Com a esperança, a cegueira que ela me trás só me faz imaginar como o mundo seria se eu tivesse ajuda.
Devo continuar cega?
O que era prazer virou vício, e o vício se tornou tédio. Todos eles me matavam, mas ter “evoluído” para esse último me mostrou que os outros dois só me levariam ao caos maior ainda. Já não consigo entender quem vive em uma busca incessante pelo que vai desaparecer já. Agora mesmo, aliás.
Olha bem pra mim, criatura, e me diz o que foi que tu levaste daqui. Está vendo essas lágrimas? Duas opções: Ou são de gente tão medíocre que tu é que servias como fonte do banal e grotesco para eles, ou, como eu, são pessoas que choram de pena de ti, que vieste ao mundo e não fizeste bem nem a ti, imagine a quem te rodeava e merecia isto.
E voltamos a visão pra cá. Pro reflexo do desespero de isso não aconteça nunca mais. Seria melhor buscar esses pequenos, caros e passageiros prazeres? Só se o cobrador não estivesse sempre li, à minha porta, me sugando cada linha dessa pseudo vida que tenho, me mostrando o quão tola já fui.
Claro que sou eu mesma me esperando à porta. Nada mais cruel e justo. Mas um dia eu atravessarei essa porta.
Continuo a etiquetar os dias. Sem sentido, sem lógica, vários rumos, uma solução. E é nesta última que eu persisto. Enfraquecendo, padecendo, torcendo pra que a esperança se vá, parando de me chamar de tola. Sozinha, só me restará a força. Com a esperança, a cegueira que ela me trás só me faz imaginar como o mundo seria se eu tivesse ajuda.
Devo continuar cega?
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Auto independência mal proclamada
No auge da minha procrastinação e da minha falta de interesse por tudo que muitos julgam ser necessário, descobri que estou certa. Não, o mundo não foi feito em 7 dias, mas talvez em 7 dias esse universo dentro de mim consiga mudar um pouco. Talvez abrindo os olhos praquilo que eu deixei ali no canto. Praquilo que eu alimentava aos poucos e que agora precisa de uma dose especial de ânimo. Sem isso, quem vai adoecer sou eu.
Não, eu não nasci ontem. Eu nasci faz pouco tempo mesmo e já estão me dizendo pra cuidar da minha própria vida. Só esqueceram de comentar que eu sempre fiz isso. Aquela velha trave nos olhos chamada egocentrismo nunca deixou que vissem que eu sempre fui dona de mim, até quando parecia ser a mais vendida das criaturas. Há pouco tempo me convenci que interesse não é uma palavra tão feia assim. Uso disso pra não me culpar por certas atitudes e certas máscaras que me obrigo a usar. Se é errado, eu não sei. Ou finjo não saber. Só sei que se eu tirá-las, algum tipo de monstro vai ter que sair. Pra alguns, um que quebra todas as regras de convivência em sociedade. Para outro, um bichinho sincero. Se esse último fizer sucesso, mais máscaras vão cair, e talvez menos incômoda vai ser minha presença.
Respirar às vezes faz mal. Não, não é só porque eu tenho problemas respiratórios. Respirar certas ideias deixadas no ar andam me deixando zonza, inquieta. Morrer me privando de respirar parece uma alternativa um tanto quanto encantadora. Mas não, ainda vou achar algo que purifique essa névoa escura que me cerca às vezes. Talvez eu já tenha achado, mas não soube aproveitar ainda. Talvez eu nem seja digna de usar algo assim. Dançar em volta disso já me faz feliz, mesmo ainda tonta. E é assim eu que eu vou continuar até eu achar que é necessário.
Ou até que o ar se torne irrespirável.
P.S.: Teve um pouquinho de influência da música My Body is a Cage, do Arcade Fire, sim. Mas só um pouquinho.
Não, eu não nasci ontem. Eu nasci faz pouco tempo mesmo e já estão me dizendo pra cuidar da minha própria vida. Só esqueceram de comentar que eu sempre fiz isso. Aquela velha trave nos olhos chamada egocentrismo nunca deixou que vissem que eu sempre fui dona de mim, até quando parecia ser a mais vendida das criaturas. Há pouco tempo me convenci que interesse não é uma palavra tão feia assim. Uso disso pra não me culpar por certas atitudes e certas máscaras que me obrigo a usar. Se é errado, eu não sei. Ou finjo não saber. Só sei que se eu tirá-las, algum tipo de monstro vai ter que sair. Pra alguns, um que quebra todas as regras de convivência em sociedade. Para outro, um bichinho sincero. Se esse último fizer sucesso, mais máscaras vão cair, e talvez menos incômoda vai ser minha presença.
Respirar às vezes faz mal. Não, não é só porque eu tenho problemas respiratórios. Respirar certas ideias deixadas no ar andam me deixando zonza, inquieta. Morrer me privando de respirar parece uma alternativa um tanto quanto encantadora. Mas não, ainda vou achar algo que purifique essa névoa escura que me cerca às vezes. Talvez eu já tenha achado, mas não soube aproveitar ainda. Talvez eu nem seja digna de usar algo assim. Dançar em volta disso já me faz feliz, mesmo ainda tonta. E é assim eu que eu vou continuar até eu achar que é necessário.
Ou até que o ar se torne irrespirável.
P.S.: Teve um pouquinho de influência da música My Body is a Cage, do Arcade Fire, sim. Mas só um pouquinho.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Não mais essa voz
Decidi que não vou mais. Sério, não faz sentido. É escuro e denso, não dá pra se mover. A gente não sabe quando está dentro ou fora, a não ser quando se bate de frente com algo. É algo bem tateável, que quando chegou aos meus olhos, me deixou cega por um bom tempo. Fiquei me arrastando no chão, seguindo o que aquela voz dizia, sem questionar. Era minha única saída, ou eu achava que era. Teria ela me hipnotizado também? Não duvido.
Mas aquela voz nunca me deixou provar o gosto que tudo aquilo tinha. Eu estava ali, pronta pra saborear a situação como se fosse o melhor prato que eu iria comer. Iria devorá-lo com a calma de quem sabe que cada momento é único, mesmo que ela possa se repetir.
E a voz me julgou tola. Incompleta, talvez. Eu era seu pequeno entretenimento gratuito. Ver-me me debater nas paredes para encontrar uma resposta praquele enigma era muito divertido. E quando caia em suas armadilhas? A voz ria, caçoando de mim, a mais tola das criaturas que já caíram ali, sem dúvida.
E eu soube me lavar de tudo isso. Gritei: “Não, não vou soltar mais meus cabelos. Voz, o ar que tu baforas em mim faz com que cada fio de cabelo meu queira ganhar vida e saia pra viver mais do que eu aqui.” E me lavei na primeira fonte que vi no caminho. Foi difícil, mas achei uma saída.
E realmente nunca mais voltarei. Tua voz deixou de me hipnotizar e o gosto não me interessa. Pro labirinto do teu ser, não volto nunca mais.
Vou me perder em outros labirintos onde eu saiba que há um fim.
Sempre com novo começo, claro.
Mas aquela voz nunca me deixou provar o gosto que tudo aquilo tinha. Eu estava ali, pronta pra saborear a situação como se fosse o melhor prato que eu iria comer. Iria devorá-lo com a calma de quem sabe que cada momento é único, mesmo que ela possa se repetir.
E a voz me julgou tola. Incompleta, talvez. Eu era seu pequeno entretenimento gratuito. Ver-me me debater nas paredes para encontrar uma resposta praquele enigma era muito divertido. E quando caia em suas armadilhas? A voz ria, caçoando de mim, a mais tola das criaturas que já caíram ali, sem dúvida.
E eu soube me lavar de tudo isso. Gritei: “Não, não vou soltar mais meus cabelos. Voz, o ar que tu baforas em mim faz com que cada fio de cabelo meu queira ganhar vida e saia pra viver mais do que eu aqui.” E me lavei na primeira fonte que vi no caminho. Foi difícil, mas achei uma saída.
E realmente nunca mais voltarei. Tua voz deixou de me hipnotizar e o gosto não me interessa. Pro labirinto do teu ser, não volto nunca mais.
Vou me perder em outros labirintos onde eu saiba que há um fim.
Sempre com novo começo, claro.
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