quinta-feira, 22 de julho de 2010

Não mais essa voz

Decidi que não vou mais. Sério, não faz sentido. É escuro e denso, não dá pra se mover. A gente não sabe quando está dentro ou fora, a não ser quando se bate de frente com algo. É algo bem tateável, que quando chegou aos meus olhos, me deixou cega por um bom tempo. Fiquei me arrastando no chão, seguindo o que aquela voz dizia, sem questionar. Era minha única saída, ou eu achava que era. Teria ela me hipnotizado também? Não duvido.

Mas aquela voz nunca me deixou provar o gosto que tudo aquilo tinha. Eu estava ali, pronta pra saborear a situação como se fosse o melhor prato que eu iria comer. Iria devorá-lo com a calma de quem sabe que cada momento é único, mesmo que ela possa se repetir.

E a voz me julgou tola. Incompleta, talvez. Eu era seu pequeno entretenimento gratuito. Ver-me me debater nas paredes para encontrar uma resposta praquele enigma era muito divertido. E quando caia em suas armadilhas? A voz ria, caçoando de mim, a mais tola das criaturas que já caíram ali, sem dúvida.

E eu soube me lavar de tudo isso. Gritei: “Não, não vou soltar mais meus cabelos. Voz, o ar que tu baforas em mim faz com que cada fio de cabelo meu queira ganhar vida e saia pra viver mais do que eu aqui.” E me lavei na primeira fonte que vi no caminho. Foi difícil, mas achei uma saída.

E realmente nunca mais voltarei. Tua voz deixou de me hipnotizar e o gosto não me interessa. Pro labirinto do teu ser, não volto nunca mais.

Vou me perder em outros labirintos onde eu saiba que há um fim.

Sempre com novo começo, claro.

domingo, 4 de julho de 2010

Bem além

Além dos gestos
Além dos olhares
Além daquilo tudo que eu rejeito
Além do que eu tento tratar de esquecer
Além do que eu tento mudar
Além do que eu faço para mudar

Sou eu, novamente me colocando contra a parede
Querendo saber quando esse teatro vai fechar as portas
Quando minha carta de demissão vai ser expedida
Para que não jogue todos os papéis fora novamente


Deixe-me inalar algo que não seja a realidade


Como? Você vai já descobrir

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Demagogia amorosa

E eu te adoro. Aliás, é pouco. Eu te amo. Todos os cheiros e luzes que você me proporcionou são suficientes para isso. Tu me deste os melhores momentos das últimas semanas que nenhum outro ser que passou por mim poderia me dar. Por isso já posso esbravejar aos quatro ventos a palavra mais forte que o ser humano tem e talvez a mais utilizada. Nós, de mãos dadas agora, podemos mostrar a todos que nossa felicidade é superior.
Seria mesmo isso o amor que o resto dos humanos julga ser? Esse tremor nas mãos que em todas as páginas ditam ser amor não pode ser algo diferente? Talvez não. É difícil acreditar que tantas páginas sejam escritas só para parecerem felizes. Acreditar nisso não funcionou nas outras vezes, mas o que posso fazer além disso? Desacreditar na sinceridade das páginas e na beleza dos sorrisos esboçados nas praças?


Algumas páginas, beijos e suor compartilhados entre eles e outros...

Eu te odeio! Como pude acreditar que meu sentimento tão sincero era correspondido? Nossos olhares ao redor não significaram nada além de mais oportunidades? Controlei-me à toa ao recusar todos os outros amores disponíveis? Irei me agarrar ao primeiro que se apresentar e se mostrar melhor que tuas (in)jur(i)as.


E eu, que sempre escolho minhas palavras como se estivesse as levando para casar, estranho e sangro, mesmo sem saber se aquilo realmente tem uma fina camada de desespero ou de interesses exteriores, cada vez que essas palavras ou semelhantes me golpeiam, mesmo sem querer:



Hey, você! Eu acho que te amo!






Feliz dia dos namorados atrasado, minha gente!

sábado, 22 de maio de 2010

Ana: Falida e Opaca

Ana, tu te lembras?

Um dia, quanto tu querias fazer de teus olhos centro do universo e construir ao redor deles uma imensidão de cores e sentimento, te disseram que era tolice querer brilhar. Fizeram-te opaca quando tu emanavas luz e calor, podendo iluminar até os mais distantes.

Tu perdeste cor, Ana.

O vento, viajante e sombrio, levou com ele o pulsar de tua voz e o som de teu abraço. Agora tu, como qualquer outro objeto, precisas ser iluminada para que alguém veja que tu ainda existes. Aqueles que da escuridão vieram e escuros permaneceram fizeram de ti fonte de sorriso efêmero. Quando tremiam ao rir de ti, na verdade eram suas entranhas que estavam se retorcendo ao lembrar de suas próprias mazelas.

E tu pensavas que a errada era tu, Ana!

Deixaste o mundo te devorar para que tu virasses massa. E hoje tu vês que todos desejam ser foco, e não parte. Fizeram de ti exatamente o que queriam: Tornaram-te transparente, Ana, para que não vissem que tu valias a pena. Tu nasceras luz, e eles não suportaram a ideia de não terem nascido do mesmo jeito.

E agora tu só querias iluminar um só ser.

Com que forças tu fará isso, Ana?



P.S.: O texto original não tinha esse final. Mas fazer o quê? O vento e nem a massa perdoam.

domingo, 14 de março de 2010

Ruminando...

- Por que eu atraso pras coisas realmente necessárias e chego cedo nas supérfluas?

- Por que agora eu tenho mania de colecionar fotos 3 X 4?

- Por que eu sinto nojo de pessoas que compram só por comprar, mesmo sabendo que aquilo pode estar suprindo alguma atenção que lhe falta?

- Por que muitos acham que eu faço muito e eu acho que faço tão pouco?

- Por que meu orgulho é tão grande que me deixar passar vergonha às vezes?

- Por que pra mim é tão difícil dizer que amo alguém?

- Por que eu me sinto triste quando menstruo, já que ali é metade de um possível ser humano, e dificilmente haverá um homem que se sente triste quando libera milhões de espermatozóides à toa?

- Por que eu fiquei calada por tanto tempo, quando minha palavra poderia ter mudado totalmente o rumo das coisas?

- Por que eu ainda me pergunto tolices?

- E por que eu não sei responder essas tolices?




Deus, me desculpe, mas estou tentando me entender primeiro pra depois te entender melhor. Sei que esse é o único meio de fazer isso, mas sua filha aqui é meio lenta. Com paciência, ainda vou te mostrar que sirvo pra alguma coisa. Continue assistindo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Algo perdido

Corpo, espelho de minha falha
Tentas arrastar minha alma à tua farsa
Mas antes que me leves para a mais destilada desgraça
Irei desatar-me de tuas correntes de avareza

Caio nas mais tolas armadilhas de carne
E mesmo que eu escape sagazmente
Tu usas outros prisioneiros para me julgar
Usufruis da minha própria lama para me afogar

Triste fase de vangloriada efemeridade
Tantos choram partindo
Tantos choram para não partir
E eu imploro por forças para merecer sair
Herculeamente não posso seguir
Antes que queira forçar uma errônea saída

Tortura nauseante é encarar-me entre as pratas
Deus, como pude ser capaz de tal selvageria?
Transformei razão em veneno
Em vez de coragem, usei de covardia
Para ofender, sem qualquer lampejo de lucidez
Quem tanto bem eu queria

Agora, seguindo em meu baile de doces máscaras
Espero perdão, mesmo que seja improvável
Não de quem perfurei a chaga já aberta
Que, aliás, já me perdoara... Minha doce criatura
Mas espero perdão de quem vê a própria chaga apodrecer e não faz nada
Rogo o perdão a mim mesma, mas me nego a me deixar ir
Prefiro ver a dor do que negligenciar minha culpa

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Vazio movimento

Empurrões e xingamentos. Cara feia e escoriações. Mau cheiro e muito bom cheiro. Ter que lidar com isso todo dia é, no mínimo, cansativo. Ser transportado de um lugar para outro com várias pessoas amontoadas que você geralmente não conhece é uma experiência que muita gente reza para não ter que passar. Motivo? Não são os empurrões e muito menos o mau cheiro.
Dentro de um lugar como esse é bom ter a cabeça cheia de idéias, pois sem elas você não se sentirá com a leve calma de não pensar em nada. Você se sentirá vazio. É como se fosse só mais um prego na caixa de um carpinteiro, que não fará diferença se cair por uma fresta. Às vezes é bom se sentir “coletivo”, mas quando se sabe que há uma função para você. Ali é torturante se olhar através do vidro, pois não verá só a si, mas vários rostos em conjunto, sem individualidade alguma.
A “dor” diminui quando se está em um transporte mais individual, podendo até ser divertido, sem perder a essência da coletividade sem objetivo. Torna-se até mais “doloroso” do que um que cabe várias pessoas quando há vários com poucas pessoas dentro. Há um sentimento de destruição (sim, sou meio “eco chata”) e de solidão tão grande que só uma paisagem natural e pacífica traria calma. O urbano não faz mais sentido. Aliás, nunca fez pra mim.
Ora, ora, quem sou eu para dizer que algo não faz sentido? Talvez faça, mas não sou ninguém para dizer algo assim. Sou viciada na matéria e na boa parte dos prazeres que ela proporciona, e não me orgulho disso. Odeio a idéia de ser apegada a algo tão efêmero. Queria ter a calma de quem acha que sua existência se resume a isso e que seu destino se resume a dois caminhos. Como não consigo ser assim, inquieto-me com esse tipo de situação e a com a indiferença ou até diversão das pessoas com esse tipo de coisa. Sou pedante? Acho que não chega a tanto.
Estou pedindo um teleporte? Só se eu não tivesse consciência de em que estágio o mundo está. Também não peço mais calma das pessoas, não quero nada artificial. Não peço nada, pois não tenho o dom de pedir. Só dou um conselho: tente não perceber o mundo a sua volta. Só lhe fará ver o quanto você poderia ser melhor e estar num lugar melhor. Por um período, viaje para um mundo onde a diferença realmente existe e não te faz pior ou melhor, enquanto te transportam para outro destino qualquer.

Obs: Se você pensa diferente, ótimo. Você está mais próximo da sanidade.